
" A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos."
Carlos Drummond de AndradeHá muito os olhos foram despertos pelos pensamentos latejantes da noite anterior. Uma sensação estranha de ter esquecido as sandálias em algum lugar, de ter perdido o juízo no momento em que resolveu aceitar estar "naquele" lugar. Ao ver a fila quilométrica que se fazia para entrar; tudo dizia em letreiro neon: NÃO VAI SER LEGAL. Mas, essa mania terrível de tentar, só mais esta vez. Saltos vermelhos, short branco, blusa preta com bordas de oncinha (pois é, agora usa oncinha, mas em escala ainda imperceptível, poderiam ser bolinhas). Assim que o portão se abre, areia fofa e o arrependimento daquela sandália linda, vermelha, agarrada ao tornozelo delineando as pernas. Entra areia, agonia, tenta correr, o que poderia ser pior?! PEDRINHAS, a segunda etapa do caminho eram PEDRINHAS de jardim, um suplício. Olha para um lado e para o outro, avista um amigo, o que aliás lhe faria companhia a noite inteira, percebendo inclusive a letargia de encontros fatídicos e escusáveis... Antes tivesse prestado atenção no letreiro: NÃO VAI SER LEGAL. Tudo muito evitável. Músicas desconhecidas, apesar de perceber que a boca de todos se moviam e ainda balançavam seus corpos em sintonia com a harmonia da banda, pois é, tinha banda. Mas, ela não é feita de bandas e sim de inteiras partes desconexas dela mesma. Resolveu entrar no clima, olhares trocados, mãos que sempre querem chegar artreiras, mas seu rosto sisudo expulsa as tentativas. Olha, se arrepende, muita gente, muito escuro, pouco chão, sobrando vontade de estar em terra firme, em segurança. Fazia muito tempo que essa sensações não pousara em seu peito. Gosto amargo. Conseguiu uma brecha 2:30 de estar em casa, deitou, olhou para os pés, pretos, borrados, incompatíveis. As sandálias? Estas deveriam ter sido esquecidas em casa, como todo o resto do seu corpo.